sexta-feira, 31 de julho de 2015

NOVIDADES EDITORIAIS (77)

TUNGSTÉNIO - Edição Polvo. Autor: Marcello Quintanilha.
Pela série de nove álbuns Sept Balles Pour Oxford (ed. Lombard), já conhecíamos o traço firme do jovem brasileiro Marcello Quintanilha (residente em Barcelona). Depois, tivemos o prazer de o conhecer pessoalmente nos primeiros dias do Festival BD de Beja deste ano. Aqui foi então lançado e apresentado ao bedéfilo português o álbum “Tungsténio”, publicado no Brasil em 2014 e, neste ano que decorre, com edições em Portugal, Espanha e França.
É uma obra forte, amarga, marcadamente realista e com alguns laivos de romantismo. Os três temas que se entrelaçam estão admiravelmente marcados na força do preto-e-branco, pelo traço belo e feroz de Quintanilha.
O nosso aplauso pleno!

LE GÉNIE CRÈVE L’ÉCRAN - Edição Lombard. Argumento de De Groot e arte de Turk.
Este tomo é o 46.º álbum da impagável e tão divertida série “Léonard”. Sempre com a eterna “guerrilha” do irascível e velho inventor Léonard e o seu mártir discípulo Basile, com as frequentes participações da cozinheira, do gato e da ratinha.
É uma obra salutar, belo remédio para os sisudos e os resmungões.
Mais uma vez, De Groot e Turk estão de parabéns.

LA MÉMOIRE DES NOYÉS - Edição Bamboo (Grand Angle). Autor: Jack Manini, segundo uma história original de Patrick Ordas e Patrick Cothias.
La Mémoire des Noyés é o terceiro e último tomo da série “S.O.S. Lusitania”, focando com uma necessária ficção, aspectos vários da tragédia naval e autêntica do traiçoeiro afundamento em 1915 no Oceano Atlântico, entre os Estados Unidos e a Inglaterra, do transatlântico “Lusitania” por um submarino alemão.
Quem traiu quem, para que esta tragédia tivesse lugar ceifando tantas e tantas vidas? Será que o espírito dos afogados ainda pode reclamar por um ajuste de contas?...

CUMBE - Edição Polvo. Autor: Marcelo D’Salete.
Brasileiro, este autor e desenhista tem obra publicada em vários países, além de participações suas em diversas festas (exposições, salões e/ou festivais) de Banda Desenhada.
Neste belíssimo álbum, “Cumbe”, se narram situações cruéis e de subentendidas vinganças, mesmo para além de mal escondidas histórias de amor, situações “infernais” que os escravos negros, sobretudo oriundos de Angola e do Congo, sofriam num Brasil luso-prepotente (mas era assim a época...).
Hoje, em teoria, o esclavagismo já não existe. Não?!... Marcante, este disfarçado sistema ainda é usado por muitas nações “árabes”, pois muito ingénuo africano que vai piamente em peregrinação a Meca, “desaparece” e não torna mais!... Mas há por aí muita hiena com forma humana que só sabe vociferar contra os portugueses, os espanhóis, os franceses, os holandeses, os ingleses, etc. Que pena que tal visão tenha os olhos desviados um do outro!
Contudo, “Cumbe”, é uma obra que deve ser lida.

ZITS EM CONCERTO - Edição Gradiva. Autores: Jerry Scott e Jim Borgman.
Hilariante! Simplesmente... hilariante!
O personagem central desta série, o jovem Jeremy, tem muitas afinidades com o popular Gaston Lagaffe. São ambos preguiçosos, aparentemente ingénuos, dorminhocos, desleixados e desarrumados, aptos em criar situações em que qualquer um “sai dos carretos”. De resto, Jeremy leva a vantagem de ser muito mais comilão que Lagaffe. Cada um no seu universo, um tanto paralelo e tangente, a nível de pódio, ganhariam ambos o primeiro prémio em ex-aequo.
Sempre que lemos um álbum desta divertidíssima série “Zits”, ficamos tristes quando ele chega “ao fim”. E agora? Quando é que vem o próximo?
LB

terça-feira, 28 de julho de 2015

UMA OBRA... VÁRIOS ESTILOS (4) - SCARAMOUCHE

É no trágico ambiente feroz da Revolução Francesa que Rafael Sabatini coloca a acção da sua bela e aplaudida novela “Scaramouche”, plena de romantismo e de aventuras com vários momentos de duelos à espada.
Rafael Sabatini nasceu a 29 de Abril de 1875 em Iesi (Itália) e faleceu a 13 de Fevereiro de 1950 em Adelboden (Suíça). De origem italiana, tinha também a nacionalidade inglesa e daí que seja “usurpado” pelos intelectuais de ambos os países.
Na sua bibliografia, salientam-se títulos como “The Lovers of Yvonne”, “The Lion’s Skin”, “The Sea Hawk”, “The Romantic Prince”, “The Black Swan “ e “The Lost King”, havendo dois romances de aventuras que se colocam no topo dos seus escritos, “Capitão Blood” e, sobretudo, “Scaramouche”.
Pela Banda Desenhada, “Scaramouche” tem quatro (no mínimo) registos de monta, a saber:

HENRY C. KIEFER - para os “Classics Illustrated”, depois com edição em português no Brasil, na “Edição Maravilhosa” #50 (1952).
Capa e pranchas de "Scaramouche", por Henry C. Kiefer, in "Edição Extra Maravilhosa" #50 (1952)

FRANÇOIS CRAENHALS - este saudoso desenhista belga adaptou, numa curta, a versão cinematográfica de George Sidney, que foi publicada em português no “Cavaleiro Andante” #110, em Fevereiro de 1954.
Pranchas de "Scaramouche", por François Craenhals, in "Cavaleiro Andante" #110 (1954)

FERNANDO BENTO - este português e nosso desenhista de honra criou a sua versão de “Scaramouche” para o “Cavaleiro Andante” do #395 ao #425 (1959-1960), que ainda não foi recuperada em álbum (?!).
Capa e pranchas de "Scaramouche", por Fernando Bento, in "Cavaleiro Andante" (1959-60)

DOUG HANSEN - ilustrador norte-americano, realizou, nos anos 70, uma adaptação algo livre desta obra.
Pranchas de "Scaramouche, the Greatest Swordsman in all the France",
 por Doug Hansen (1978)

Rodapé: Há versões para o Cinema e a Televisão, realizadas em 1923, 1952, 1956 e 1976, sabe-se lá com que “aproximações” dignas do romance original de Sabatini!...

Registamos o nosso agradecimento ao apoio prestado por Carlos Gonçalves.
LB

sábado, 25 de julho de 2015

ENTREVISTAS (19) - LUÍS AFONSO


Luís Afonso (Foto: Miguel Madeira)
Luís Afonso é um dos mais reconhecidos cartunistas portugueses da actualidade.
Nasceu em Aljustrel, em 1965, estudou em Lisboa mas reside em Serpa.
Depois de formar-se em Geografia, abdicou da carreira de docente para se dedicar por inteiro à publicação de cartunes e tiras BD na imprensa.
A partir daí, nunca mais parou de produzir "bonecos", em jornais e revistas como o Diário, Diário do Alentejo, A Bola, Público, Público Magazine, Grande Reportagem, Sol ou Jornal de Negócios, até ultrapassar os 20.000 cartunes publicados!
Apesar deste número astronómico, todos sabemos que a qualidade do seu trabalho não esmoreceu. Pelo contrário. Parece que, cada dia que passa, reforça o seu estatuto, deixando provavelmente a Sr.ª Merkel a pensar com os seus botões: "Este tipo é tão produtivo que até parece alemão!"
Em compensação, muitos portugueses pensarão: "Este tipo é tão produtivo que nem parece alentejano!"
Desafiá-mo-lo para uma entrevista, sem pressas e sem qualquer compromisso quanto a datas para nos dar as respostas. Não por ele ser alentejano, claro, mas de modo a deixa-lo à vontade e não prejudicarmos o seu plano de trabalho diário.
A verdade é que, apenas duas semanas depois, aqui está a entrevista do Luís Afonso. Fresquinha, portanto, para combater o calor que se faz sentir.
Aproveitem-na bem.


BDBD - Tens o curso de geógrafo mas ganhas a vida a fazer cartunes e tiras de Banda Desenhada. Como surgiu esta "mudança de direcção" na tua carreira?
Luís Afonso (LA) - Aconteceu por acaso. Sempre desenhei as minhas histórias de BD, mas como hobby. No primeiro ano de faculdade, em 1984, publiquei uma BD num suplemento de um jornal. Quando lá fui buscar as pranchas originais, no princípio de 1985, perguntaram-me se não queria fazer um cartune semanal, coisa que eu nunca tinha pensado, eu nem ligava muito a cartunes, confesso. Experimentei e desde essa altura nunca mais parei.

BDBD - Quando é que sentiste que, verdadeiramente, eras um cartunista e que era isso que querias fazer na vida? Foi um sentimento que te acompanhou logo que publicaste os primeiros desenhos ou foi aparecendo gradualmente, até encetares a tempo inteiro por essa actividade?
LA - Talvez só me tenha sentido verdadeiramente cartunista quando percebi que tinha de optar entre dar aulas de Geografia e trabalhar a tempo inteiro nos cartunes. Foi em 1993, quando comecei no Público. Como já colaborava n’ A Bola e na Grande Reportagem, começaram a ser coisas a mais, porque a profissão de professor é muito desgastante com as aulas, a preparação das aulas, a correcção dos testes, as inúmeras reuniões de professores, do Conselho Pedagógico, etc, etc. Ainda consegui conciliar dois anos, mas abandonei o ensino em 1995. Fiquei com pena, mas vou matando saudades quando me convidam para ir a escolas.

BDBD - Quem opta por fazer cartune tem sempre algumas referências que o acompanham para sempre. Quem foram, ou são, os cartunistas que mais admiras, que te despertaram o “bichinho” e te fizeram pensar em seguir-lhes os passos?
LA - Como te respondi atrás, comecei a fazer cartunes por acaso, sem estar ligado minimamente a esta área. Portanto, para o melhor e para o pior, comecei sem referências nenhumas. Conhecia o que toda a gente conhecia: a Mafalda, os Peanuts, o Mordillo, mais nada. Em Portugal só conhecia o Sam, do "Guarda Ricardo", porque na minha terra (Aljustrel) ia todos os dias a uma sociedade recreativa que tinha o Diário de Notícias na sala de leitura. E eu lia o Sam, mas sem me passar pela cabeça vir a fazer aquilo no futuro. Conheci-o mais tarde e, já numa perspectiva de jovem cartunista, admirava bastante o seu trabalho. Foi sem dúvida quem mais me marcou, sobretudo pela arte de fazer cartunes com a prevalência do texto. Foi uma grande responsabilidade ocupar o lugar que ele deixou no Público.

BDBD - Como te surgem as ideias para os cartunes? É algo que nasce espontaneamente ou requer da tua parte muito tempo de pesquisa e de concentração?
LA - Depende dos casos. Tanto me pode surgir uma ideia de repente como ter de andar um dia inteiro a pesquisar notícias na net para trabalhar. Mas a actualidade é tão fervilhante que às vezes tenho mais trabalho a decidir sobre qual a ideia que vou utilizar no cartune do que propriamente a encontrar uma.

BDBD - Qual foi o projecto, ou a série, em que trabalhaste que mais prazer te deu até hoje?
LA - É difícil dizer qual foi o projecto/série que me deu ou dá mais prazer, de uma forma ou de outra tenho tido prazer nos vários projectos e séries em que tenho trabalhado. Desde o Barba e Cabelo, com o qual consegui pôr uma tira diária sobre desporto/futebol na imprensa, o que não era nada comum na imprensa desportiva, e que já tem mais de 25 anos...
"Barba e Cabelo", in jornal "A Bola"

...passando pelo Bartoon (que continua a ser um desafio estimulante todos os dias, desde 1993)...
"Bartoon", in jornal "Público"

...até à tira SA (2003), no Jornal de Negócios, que me permitiu entrar a fundo no mundo da Economia e Finanças numa altura em que o Mundo tem atravessado a maior crise económica e financeira dos últimos cem anos. 
"SA", in "Jornal de Negócios"

...E há os outros projectos, como o Lopes, o escritor pós-moderno,  que começou na Grande Reportagem em 1991...
"Lopes, Escritor Pós-Moderno", in "Grande Reportagem"

...a série de animação A Mosca, que foi transmitida durante seis meses na RTP 1, em 2014... 
video

...ou a tira RIbanho para o Diário do Alentejo, em que eu fiz os textos e tu os desenhos durante cerca de 10 anos, até 2012.
"RIbanho", in "Diário do Alentejo"

BDBD - Tens algum tema que nunca tenhas trabalhado em que gostasses de pegar?
LA - Assim de repente, não me ocorre nada. Se calhar até já peguei em coisas a mais.

BDBD - Disseste-me um dia que gostas mais de escrever do que desenhar. No entanto, só tens um livro publicado (“O Comboio das Cinco”). Tudo o mais (e não é pouco) são argumentos para cartunes, tiras ou pequenas bandas desenhadas de poucas pranchas. Porquê?
LA - Já acabei um segundo livro só de texto. São seis contos e, em princípio, será lançado ainda antes do fim do ano pela Abysmo, que já me editou “O Comboio das Cinco”.  E já estou com mais projectos a esse nível. Como sabes, e tu tens conhecimento directo, cada vez me dá mais gozo escrever.

BDBD - Como se conseguem fazer dois ou três cartunes por dia, sete dias por semana, durante anos a fio? Isso não é viver em permanente "stress"?  Deve haver alturas em que estejas, porventura, sem inspiração, ou de férias, ou ocupado com qualquer imprevisto que possa surgir, ou por outra razão qualquer, e não te surjam ideias facilmente… Como resolves essas situações?
LA - Tenho de trabalhar todos os dias. Dantes ainda arriscava fazer meia dúzia de cartunes adiantados para ir passar uns dias de férias, mas não dá resultado: a actualidade é frenética de mais e não tem contemplações com atrasos na abordagem dos acontecimentos. Percebi que era pior retomar o trabalho do que continuar a fazê-lo, mesmo de “férias”. Assumi que trabalho todos os dias e não deixo de sair por isso. A minha família habituou-se a que eu trabalhe todos os dias. Felizmente a tecnologia actual permite-me fazer isso, consigo ler a informação e enviar os cartunes de qualquer parte.

BDBD - Tens ideia (ainda que por alto) de quantos cartunes já publicaste até hoje?
LA - De certeza mais de 20.000, talvez 25.000.

BDBD - Há alguns anos, dizias numa entrevista que esta actividade é muito desgastante e que o cartunista consome muita energia enquanto pensa e realiza o seu trabalho. Consegues ver-te, daqui por vinte anos, a fazer o mesmo que fazes hoje - dois ou três cartunes por dia - ou sentes que, com o tempo, terás, irremediavelmente, que abrandar o teu ritmo?
LA - Sinto que não devo fazer previsões porque podem falhar. Assim como as dos economistas. Mas ver-me vivo daqui por vinte anos já não era mau.

BDBD - Como vês a situação actual do cartune de imprensa em Portugal?
LA - A situação mantém-se tristemente estável. Somos praticamente os mesmos de sempre. É pena não haver espaço na imprensa para aparecerem novos nomes.

BDBD - A que achas que isso se deve?
LA - Há dois motivos, um interno e que vem de trás, outro externo e mais recente. O primeiro tem a ver com o facto de os jornais portugueses nunca terem tido a tradição de manter nas suas páginas vários cartunistas em simultâneo, ao contrário do que se passa noutros países. Tu pegas num grande jornal francês, inglês, norte-americano, brasileiro ou espanhol e encontras vários autores a coexistir, cada um com o seu estilo. Estar lá um não impede que estejam outros, como estar um colunista não impede que estejam outros. Aqui em Portugal há no máximo dois cartunistas por jornal. É o caso, por exemplo, de A Bola. Estou lá eu e o Ricardo Galvão. Ele mais virado para a caricatura e cartunes puramente gráficos, eu dedicado às tiras/cartunes onde predominam as palavras. Dois estilos completamente distintos e compatíveis. Mas o Ricardo não faz todos os dias e nos países que referi há vários cartunes por jornal todos os dias, portanto são realidades que nem se aproximam. Em tempos defendi a ideia de que os prémios para cartunes, em vez de servirem só para premiar os consagrados (eu fartei-me deles, deixei de participar já há uma dúzia de anos e mesmo assim tenho uma gaveta cheia de estatuetas horrorosas que não mostro a ninguém) deveriam apostar na revelação e publicação de novos talentos. O prémio pecuniário, em vez de se destinar a um veterano, serviria para manter um espaço semanal (ou diário, se o dinheiro fosse suficiente) num ou mais jornais para publicar novos autores. Desses, os que se destacassem poderiam ser convidados a trabalhar nesses jornais. Era uma forma de deixar que o talento aparecesse (porque ele existe, só que não tem espaço para se mostrar). Quanto ao outro motivo, o externo, é a crise que a imprensa atravessa, com o aparecimento da informação gratuita na internet, ainda por cima agudizada pela crise económica, o que faz com que, mesmo que o primeiro motivo não existisse, fosse difícil para os jornais contratarem mais autores.

BDBD - Que conselho dás a um jovem que queira iniciar-se nesta  carreira?
LA - Que pense duas vezes antes de se iniciar. Não, três.
CR 


"Histórias Invertebradas", in "Público Magazine"
"Barba e Cabelo", in jornal "A Bola"
"SA", in "Jornal de Negócios"
"Bartoon", in jornal "Público"
"Humor Ardente", in jornal "A Bola"
"Lopes, Escritor Pós-Moderno", in "Grande Reportagem"
"Lopes, Escritor Pós-Moderno", in "Grande Reportagem"
"O Sol aos Quadradinhos", in jornal "Sol"

terça-feira, 21 de julho de 2015

BREVES (11)


VIRIATO NA BD
Continua a decorrer em Moura, até 2 de Agosto, a exposição "Viriato na Banda Desenhada", uma co-produção entre a Câmara Municipal de Moura e o Gicav, com a colaboração da Câmara Municipal de Viseu, da Junta de Freguesia de Viseu, do Instituto Português do Desporto e Juventude e do Pólo de Moura da Inovinter.
A mostra, comissariada por Luiz Beira, tem trabalhos de autores portugueses e espanhóis. 
Após o encerramento, a exposição segue para Viseu, onde a 30 de Agosto abrirá portas durante a Feira de São Mateus sendo, em simultâneo, lançado o álbum "Viriato", de José Garcês, reedição de uma história publicada entre 1952 e 1953 no "Cavaleiro Andante".




CASEMATE / 83 
A revista francófona “Casemate”, mensal por hábito, neste n.º 83 aposta nos meses de Julho e Agosto. Traz um belo recheio de assuntos de muito agrado. Indicam-se alguns deles em destaque:
- a entrevista com Riad Sattouff
- o dossiê Sfar e o seu “gato do Rabino”
- a entrevista com Elsa Charretier e Pierrick Collinet em “Arautos da Causa Homo” (Hérauts de la Cause Homo), onde chamam os bois pelos nomes com toda a frontalidade
- anúncio do 27.º Festival BD Solliès-Ville (região francesa de Provence), de 28 a 30 de Agosto. Entre muitos  autores, estarão presentes : Baru, Boucq, Cestac, Cosey, Dany, Loustal, Enrico Marini, etc. Contactos: alien@wanadoo.fr ou www.festivalbd.com









RIC HOCHET... Pois!
A parceria edições Asa e jornal “Público”, tem estado a publicar às quartas-feiras uma breve dose (serão doze no total) de álbuns da série “Ric Hochet”. Muitas da aventuras indicadas eram (são) inéditas em Portugal.
O último tomo, “O Puzzle Mortal” sairá a 19 de Agosto.




Manuel Mestre (terceiro a contar da esquerda), durante a sessão de homenagens do Moura BD 1995.
FALECEU MANUEL MESTRE 
No passado dia 7 de Julho, faleceu o Eng.º Manuel Mestre, antigo Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Moura, entre 1989 e 1997, e o primeiro a apostar no Salão Moura BD (realizaram-se nos seus mandatos seis das primeiras sete edições e foram publicados o álbum "A Moura Salúquia", de Carlos Rico, e o catálogo "Humoristas Alentejanos", de Osvaldo de Sousa). 
Pessoa afável e de trato fácil, Manuel Mestre tinha 65 anos e faleceu no Hospital da Luz, em Lisboa, vítima de doença prolongada.
LB

sábado, 18 de julho de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (9)


9) A ARTE GRÁFICA E AS ILUSTRAÇÕES

Deixei claro no artigo anterior as alterações profundas realizadas na redação d’O Papagaio, e também no aspeto do jornal que passou a ser um suplemento da revista «Flama» do mesmo grupo editorial, «Renascença Gráfica». 

Embora o processo que apresentei no artigo anterior, de usar papel «Fabriano» e lápis litográfico para fazer a cor sobre os desenhos, de modo que resultasse com o aspeto de meias-tintas, mesmo em zincogravura, pensei arranjar um outro mais prático e que pudesse também ser utilizado facilmente pelos colegas. Pedi para que na União Gráfica fizessem uma zincogravura de uma trama, como se pode ver na imagem, e tirassem provas de prelo em papel acetinado mas fino. As provas tinham o formato das tiras dos nossos originais que executávamos em tamanho grande. O ponto desta trama reduziria conjuntamente com o desenho dando então uma tonalidade cerca de 30% da intensidade da cor forte.
Sobre os originais a traço depois de desenhados a tinta-da-china sobrepunha essas tiras, e à transparência, tapava com guacho branco as zonas que queria ficassem brancas, sem trama, e com tinta-da-china pintava o que desejava ficasse em cor forte. Veja-se o exemplo em baixo, os desenhos do traço e da cor, prontos a serem reproduzidos em zincogravura.

Quando os desenhos eram reduzidos para o tamanho em que iam ser impressos na revista, a trama apertava, apresentando à vista o aspeto de meio-tom como se pode observar em baixo, à esquerda.
Em cima à esquerda a ilustração no tamanho em que foi impressa n’O Papagaio.
À direita uma ilustração do Vítor Silva mostrando como usou estas tiras de papel impresso com a trama. A imagem está no formato do original, antes da redução.
Exemplo das Histórias em Quadrinhos do Vítor Silva com a aplicação deste processo. À direita uma das vinhetas antes da redução, para se poder ver o ponto a olho nu, sem auxílio de lupa. Desta forma as reproduções mantinham-se em zincogravura, não obtendo esbatidos mas conseguindo uma meia-tinta uniforme e sem ser preciso usar «fotogravuras» que eram mais caras.
Mas foi apenas o Vítor Silva quem também utilizou este meu processo, pois sendo igualmente um profissional gráfico reconheceu a vantagem da inovação. A arte gráfica tem em tudo o que fazemos para reproduzir, uma notória importância no efeito que pretendemos conseguir no final do trabalho, ao ser impresso.
Esta nova redação d’O Papagaio/Flama passou a ter outra vida, com mais movimento, com a presença de outros colaboradores da revista mãe, e entre eles destaco o Neves de Sousa, um jovem a formar-se em jornalismo, muito magro (sublinho isto porque depois deitou muito corpo) e que estava sempre com pressa, a correr de um lado para o outro. Simpaticamente o Carlos Cascais alcunhou-o de «Ventoinha». Ele sabia mas não se importava e até achava graça. Criei então uma personagem com esse nome, que entrou em algumas histórias publicadas n’O Papagaio.
Esta personagem «Ventoinha» representava um jovem jornalista que sofria toda a espécie de azares. Por exemplo, quando ia ver o resultado das fotografias tiradas, verificava que se tinha esquecido de meter o rolo na máquina, e coisas assim.
Nessa altura publiquei uma série de pequenas histórias em que o cenário escolhido foi o território português.
Continuávamos, os colaboradores, sem ter qualquer imposição de temas nem alteração ao que apresentávamos. O clima era saudável e gostavam do nosso trabalho pois íamos evoluindo. O Carlos Cascais, poeta e escritor, colaborava com poemas e contos que ilustrávamos.
A última história dessa série que publiquei foi um pouco mais longa do que as outras, e viria a ser mesmo a derradeira neste suplemento.
Foi com o semblante fechado que o Carlos Cascais, num dia triste, nos transmitiu uma notícia que recebera da administração: tinham decidido acabar com o suplemento infantil. Achavam que não se justificava mantê-lo pois não tinham qualquer indício de interesse vindo do público.
Era natural, uma vez que não havia uma secção de correio dos leitores dando-lhes a possibilidade de colocarem questões, justificando respostas e estabelecendo o diálogo.
Estávamos no início da década de 50 do século XX quando «O Papagaio» deixou de «palrar». Dizia-nos o Frei Diogo depois dessa decisão que não tinham recebido uma única carta a perguntar o motivo de terem acabado com o suplemento, nem a demonstrar terem sentido a sua falta. O Vítor Silva ainda se manteve algum tempo a ilustrar contos e novelas para a "Flama".

(Continua)

No próximo artigo: A REDAÇÃO DE "O CAVALEIRO ANDANTE"

segunda-feira, 13 de julho de 2015

NOVIDADES EDITORIAIS (76)

LA PARODIE - Edição Lombard. Autor: Michel Rodrigue, com uma breve apresentação por Jean Dufaux.
É uma loucura! Uma verdadeira bomba de paródia atravessando o panorama da Banda Desenhada. Começa logo pela capa, “inspirada” na do álbum “La Zizanie” (A Zaragata) da série “Astérix”... Em cheio!
Depois, num rodar sem freios de situações bem divertidas, surgem heróis famosos, muito bem caricaturados, dos quais se salientam aqui alguns (apenas alguns) deles: Thorgal, Robin dos Bosques, XIII, Enak, Alix, Panoramix, Prof.Tournesol, Darth Vader, Philémon, Blacksade, Prof. Mortimer, Cap. Blake, Corto Maltese, Michel Vaillant, Niklos Koda, Lucky Luke, etc, etc. E nesta balbúrdia andam todos à
procura de uma “coisa” especial chamada... CIVILIZAÇÃO!
E mais não contamos. Leiam e alegrem-se com esta obra.

L’OFFRANDE - Edição Delcourt. Autor: Benoit Roels.
“L’Offrande” é o primeiro tomo da série “L’Ombre Inca”.
Lea é uma adolescente de origem peruana. Reside em França, nos subúrbios da cidade de Lyon, sem amigos e apenas com a sua mãe adoptiva. De repente, começa a sonhar todas a noites com uma rapariga que se parece com ela, que vagueia pelos Andes e que lhe fala numa língua que não entende... Trata-se de uma jovem quéchua (incorrectamente dita, inca) do século XVI, cuja alma errante terá entrado na sua cabeça...
Dois destinos absolutamente ligados?

COMBATTANS - Edição Casterman. Autor: Hugues Micol.
“Combattans” é o primeiro tomo da série “Le Printemps Humain”, numa bizarra ficção futurista, com o nosso planeta dominado por forças extraterrestres.
A Terra ultrajada? A Terra quebrada? A Terra martirizada... mas a Terra libertada?
Com subentendidas analogias sócio-políticas de uma Terra mais ou menos do presente, o tema desta série entusiasma fortemente ante as situações que expõe.
Obra muito interessante.

O ÁRABE DO FUTURO / 1 - Edição Teorema. Autor: Riad Sattouf.
Autor francês, nascido em Paris a 5 de Maio de 1978, Riad Sattouf é filho de mãe francesa e de pai sírio. Passou parte da sua infância na Líbia e na Síria. Seu pai, que tinha um fascínio pelo culto pelos ditadores árabes (general Kadafi, presidente Hafez Al-Assad, etc), educou-o à muçulmana, mas...
Autor de BD e cineasta, com prémios recebidos por estas duas vertentes, Riad foi durante dez anos colaborador da revista “Charlie Hebdo”.
“O Árabe do Futuro”, que será uma trilogia (já saiu em França o 2.º tomo), tem sido obra muito aplaudida e com direitos de tradução para dezasseis idiomas,incluindo o árabe.
A obra que  é uma maravilhosa autobiografia, plena de uma subtil e arrasadora ironia, encanta-nos em cheio. E merece bem calorosos aplausos, sobretudo porque já tem o primeiro tomo em português.
Como sugere a crítica de uma publicação francófona: "Vivam os dois próximos volumes!"
LB

sexta-feira, 10 de julho de 2015

HERÓIS INESQUECÍVEIS (37) - O PONTO


A 29 de Agosto de 1951, no n.º 852 da saudosíssima revista “Diabrete”, aconteceu um estoiro maravilhoso: o nascimento do herói-BD, O Ponto!...
Pela “estranja”, nada constava de semelhante. Por cá, foi uma firme e encantadora sacudidela na “modorrinha nacional” (como diria Fialho de Almeida), tanto nos leitores como no seio dos nossos desenhistas de então.
Treze pranchas, do n.º 852 ao n.º 864 da já citada revista “Diabrete”, encantaram-nos e divertiram-nos com a história “Loja de Bonecos” ou “O Mistério do Cofre Sarapintado”... 
Pranchas de "Loja de Bonecos", in "Diabrete" (1951)

Foi a loucura das loucuras pela mestria da arte e do humor non sense de mestre Fernandes Silva (1931-2010). Não havia nada que se parecesse pela Banda Desenhada, mormente na nossa, na portuguesa... Era uma incrível narrativa “disparatada” e encantadora!
O herói?... Simplesmente, “O Ponto, o Detective Sem Rosto”.
Pois ele é atrevido e desastrado, pequenino, com uma enorme cabeça (lembrando um aumentado ovo de avestruz), sem qualquer traço no rosto, mas tendo como adereços, o chapéuzito e o clássico cachimbo, que era típico na época em todos os detectives. Só um talento extraordinário como foi (e é) Fernandes Silva teria e teve a deliciosa “loucura” de inventar O Ponto. Na verdade, uma maravilha!...
Ainda nesse 1951, o “Diabrete” publicou a segunda aventura de O Ponto, do n.º 875 ao n.º 887, com o título “Novas Aventuras Por Causa de Uma Talhada de Melão”. Mais tarde, em 1992, com total e amiga autorização do autor, esta narrativa foi publicada no n.º 8 dos “Cadernos Sobreda-BD”.
Pranchas de "Novas Aventuras por Causa de Uma Talhada de Melão", in "Diabrete" (1951)

Depois... depois, só por 1955, agora na revista “Flecha”, apareceu a terceira e tão esperada aventura de O Ponto, intitulada “O Ponto, Detective Privado”.
Durou do n.º 12 ao n.º 37. Mas, desoladoramente para os bedéfilos, ficou incompleta pois a revista finou-se subitamente e o nosso desenhista, desiludido, desinteressou-se... Que pena!
Pranchas de "O Ponto, Detective Privado", in "Flecha" (1955)

De qualquer modo, a revista “Flecha” maltratou quanto baste a publicação desta aventura: começou por prancha/página e passou a tiras mesquinhas em rodapé. Incrível atentado!...
O Ponto, será levianamente apelidado de anti-herói. Mas os anti-heróis não são também heróis?... De qualquer modo, é um marco indelével na BD Portuguesa.
Obrigado, Fernandes Silva!
LB

Capas de "Almada BD Fanzine" #6 (1991) e "Cadernos Sobreda BD" #8 (1992),
publicações onde O Ponto foi personagem em destaque.